Entrevista a Hugo Vieira da Silva

Posto Avançado do Progresso é um filme sobre o colonialismo, sobre os aventureiros expedicionários em África no séc. XIX ou sobre a missão civilizacional europeia?

O filme é sobretudo sobre o colonialismo Português, que parcialmente reflecte a ideologia civilizacional Europeia da época, mas que tem particularidades muito próprias até porque no século XIX a presença Portuguesa em África contava já com cerca de 400 anos de existência. No final século XIX começaram a ser importados para Portugal e para o seu espaço colonial os novos modelos anglo-saxónicos relativos ao “progresso” e à “civilização”, que no princípio eram um pouco estranhos ao tradicional modo de presença colonial Portuguesa em África. As duas personagens principais deste filme, João de Mattos e Sant’anna, representam essa geração de Portugueses para quem, à luz dessa nova mentalidade, a África central se torna paulatinamente um lugar de “incompreensão” e que por isso mesmo se encontram numa encruzilhada identitária.
A minha versão é também sobre como a memória das relações ancestrais entre Portugueses e Congoleses foi reprimida por esta nova geração. Ora os recalcamentos (aliás bastante comuns na história Portuguesa), favorecem a emergência de fantasmas. Neste filme são então os fantasmas desse passado esquecido que emergem da floresta-tropical do Congo para assombrarem os Portugueses. E os fantasmas dizem respeito a essa história partilhada: À escravatura, à inquisição (que também existiu nos trópicos), à idiossincrasia cultural congolesa e aos seus ícones... Enfim, um longo manto amnésico que se perpetua até hoje.

Um dos aspectos mais interessantes do filme  é ele ser um filme de câmara, um huis-clos que acontece em África, continente sobre o qual temos sempre uma ideia de grandes espaços abertos, florestas intermináveis, ignorância dos limites territoriais. Quer comentar?

Trabalhei na África central na zona tropical e sub-tropical, ao longo do curso do Rio Congo, lugar de florestas impenetráveis e labirínticas, habitadas pelos povos Kongo tanto a sul como a norte, na sua complexidade e variedade étnica, espaço que no final do século XIX foi retalhado pelas chamadas fronteiras de “régua e esquadro” do colonialismo moderno. A África pré- “Conferência de Berlim” (1884) abunda em reinos e potentados. Por exemplo, no início do século XIX, um sertanejo português para comerciar com reis e chefes localizados no hinterland, partindo habitualmente da costa e até chegar ao seu destino, teria de passar por dezenas de fronteiras e pagar vários tributos a chefes locais. Esta forma de comércio durou 400 anos e era a garantia da manutenção das estruturas de poder local. A partir do final século XIX, com a chegada em força das novas potências coloniais europeias e com a ocupação territorial efectiva, é imposta uma espécie de “terraplanagem” física, social e cultural que faz desaparecer essa África. Surge então nos países ocidentais a ideia de África como um espaço vazio, sem limites, história ou memória, o “não-lugar”. Esta noção é por exemplo romantizada por Conrad no Heart of Darkness / Coração das Trevas, que, apesar de denunciar o colonialismo descreve o Congo como uma espécie de espaço mítico, selvagem, insalubre e terrível. Por outro lado, no Conrad mais arguto e seminal (na minha opinião o do An Outpost of Progress / Posto Avançado do Progresso) a floresta é então um pequeno palco onde os mal-entendidos e a ambiguidade da relação colonial se encenam num jogo de esconde-esconde, de permanentes equívocos quase burlescos e onde as personagens Africanas ganham finalmente subjectividade. Quis acentuar essa dimensão teatral.

Interessou-me muito a forma como explora o pensamento mágico, as cosmologias desta região do Congo. E um aspecto muito bem tratado, a meu ver, é a impossibilidade do entendimento deste pensamento por parte dos dois comerciantes portugueses. No caso deles, a irracionalidade só lhes chega pela loucura. Está de acordo?

Sim, concordo. A este respeito há um livro fascinante de um antropólogo Americano, Johannes Fabian, chamado Out of our Minds — Reason and Madness in the Exploration of Central Africa, onde, desconstruindo de forma sistemática os relatos de viagem e diários dos exploradores, cientistas ou comerciantes europeus que deambulavam pela África tropical no final século XIX, se prova que esses documentos são muitas vezes idealizados ou imprecisos e que na maior parte do tempo estes Europeus estariam num estado permanente de êxtase provocado pela doença, altas dosagens de quinino, álcool, opiáceos e outras drogas. A hipótese, que acho muito pertinente, é de que teria sido apenas nessa “zona” extática que os exploradores europeus transcenderam as suas limitações psicológicas e sociais, conseguindo alguma imersão nas culturas locais, o que teria proporcionado eventuais diálogos ou esporádicas relações um pouco mais “horizontais” do que o sistema colonial poderia supor. Diria que a loucura das minhas personagens é tanto gerada pela impossibilidade de compreensão do outro como pela emergência do reprimido, mas gostava de pensá-la como uma possibilidade de imersão cultural, provavelmente só possível quando os corpos se esquecem de quem são...

Porque decidiu atribuir nomes da nobreza europeia aos africanos  e vesti-los com fatos da corte?

  Na minha versão livre do An Outpost of Progress, ao contrário do original o presente intersecciona-se com o passado, anulando o tempo cronológico. Num mesmo plano, no tempo presente do filme, (finais do século XIX), ecoam fantasmaticamente personagens esquecidas desses 400 anos de relações. Havia desde quinhentos, um reino Congolês com uma estrutura social copiada ao detalhe do reino Português., como se no meio da selva tropical, no século XVI, se edificasse uma cópia de Portugal com reis e nobres negros de nomes e identidade portuguesas.

Entrevistado por António Pinto Ribeiro