Nota de Intenções

O desejo de fazer um filme em Angola era antigo. Enquanto jovem a minha ideia de África, esfumava-se entre vagas imagens do que nunca vi e esparsas memórias familiares, coloridas pela omnipresença das mitologias coloniais que abundam em Portugal. Desde muito cedo que alimento a suspeita de que essa vaga memória esconde questões fundamentais, facto que se foi tornando cada vez mais claro desde que vivo fora de Portugal. África ainda é um fantasma que assombra a minha geração, aquela cujo nascimento coincide com a independência dos países africanos colonizados.

Foi neste contexto que acidentalmente me cruzei com a short-story de Joseph Conrad. Encontrei no seu conto An Outpost of Progress (1897) uma poderosa peça sobre o colonialismo, sobre a questão da alteridade e sobre a relação ambígua entre o colonizador e o colonizado. Quis reinventar esta história traduzindo-a para o contexto colonial Português - que tem uma ligação muito antiga com esta região -, para explorar uma narrativa possível da presença Portuguesa no Congo, deixando também antever uma possível sintomatologia do colonialismo Português do final do século XIX.

O conto de Conrad apresenta-se como um fortíssimo caleidescópio que refracta a complexidade da relação colonial, relativizando os olhares e as posições das personagens. Não há bons nem maus, há apenas relações de poder, transferências, inter-dependências e processos miméticos a ocorrer.

A questão fundamental da minha versão Portuguesa tornou-se, então, o tema da ilusão da comunhão das culturas e as suas impossibilidades de tradução. Um paradoxal diálogo-de-surdos que se repete ao longo de séculos entre Angolanos e Portugueses.

Quis também pensar os antigos comerciantes Portugueses do século XIX, como vagamente civilizadores, vagamente em linha com as correntes internacionais da época, mas carregando o peso de 400 anos de colonização, infectados pelas poderosas mitologias coloniais de um país antigo e visto habitualmente como «pobre»: Os portugueses periféricos, muito pouco cosmopolitas, simultaneamente arcaicos e ao mesmo tempo modernos.

Quis olhar para estes portugueses como corpos masculinos, austeros, desejantes, angustiados, a arrastar o lastro das suas resiliências, mas também extraordinariamente adaptativos e flexíveis, distraídos palimpsestos desses 400 anos de história. Num dia clamando serem colonialistas, no outro afirmando não o serem, numa espécie de esquizofrenia que só pode ter raízes num processo profundo de repressão e de negação. Os antecedentes dos nossos corpos, eventualmente do meu corpo também, já que me fascina essa extraordinária hipótese de uma «história da fisicalidade, dos corpos e dos gestos» imaginada por Aby Warburg.

Hugo Vieira da Silva